sexta-feira, 21 de maio de 2010

Tempo de conservatório musical

Cada professor do Conservatório Pernambucano de Música tinha uma peculiaridade. Eu passei minha adolescência estudando música e pude gostar e desgostar de alguns. O Conservatório era um casarão antigo com vários pés de mangas e um estacionamento grande. Na época eu estudei laá, tinha um trailer com a logomarca da coca cola que servia de cantina. Meu primeiro professor que era de teoria musical e solfejo chamava-se Severino Revoredo. Era um senhor claro com uns 67 anos que já não escutava tão bem. Tínhamos que falar mais alto pra ele poder ouvir. Lembro-me bem que quando falávamos ele colocava a mão em forma de concha na orelha e pedia pra que repetíssemos.

O danado é que na hora do solfejo (cantar a melodia com os nomes e a afinação corretas das notas) ele ouvia qualquer desafinação ou erro, mesmo se estivéssemos cantando bem baixinho. Éramos uns 35 nas sala e mesmo disfarçando , cantando baixinho no meio de outros ele apontava quem tinha errado e onde.
O Vinicius era professor de Percepção Musical. Cada manhã ele chegava contando uma história antes do início das aulas. Me lembro de algumas. Certa vez ele chegou sentou-se ao piano e começou a dizer: “gente! Coitado do boi... fico pensando no stress que eles passam todos juntos no caminhão sendo levados para serem abatidos.” Lembro-me da cara de melancolia que ele fazia. Noutro dia ele chegou: “minha gente! Não sei como é que o motorista de ônibus agüenta trabalhar. Eles ficam o dia inteiro ali sentados ouvindo aquele barulho do motor. Deus me livre, não sei como eles não ficam surdos.”
O Sérgio Barza era professor de história da música. Ficava no quadro por horas falando, escrevendo e escrevendo. Quando alguém interrompia e perguntava algo ele prontamente se virava e perguntava: “a mãe de quem?”
O Ednaldo não era professor, era um colega uns dois anos mais avançado que eu. Com ele acontecia o seguinte: quando estávamos lanchando, os professores tomando um cafezinho ele chegava pra moça da cantina e pedia um cachorro quente. Até aí tudo bem, só que aí quando pensávamos que ele iria pedir um refrigerante ou um suco e pedia um copo com leite. Daí ficávamos perturbando ele. Como é que o cara pediu um cachorro quente e um copo de leite?

Para terminar não posso deixar de citar o Henrique Anes. Grande violonista e professor que sempre tinha várias histórias pra contar. Eu adorava ficar o escutando mesmo pressentindo quem nem todas eram todas verdadeiras.

Fim

Nenhum comentário:

Postar um comentário